Transformação digital: como criar uma cultura de inovação?

Transformação digital: como criar uma cultura de inovação?

Inovar é uma questão de sobrevivência. Com essa percepção, a área executiva da Cyrela deu vida em 2020 à diretoria de Transformação Digital. Mas como está sendo, na prática, estimular uma cultura de inovação em uma empresa com mais de 50 anos e uma das líderes no ramo da construção? Como a pandemia acelerou os processos de criação? E como as ações sociais podem evoluir para o ambiente digital e ganhar escala? Esses são alguns dos tópicos que conversamos com Guilherme Sawaya, diretor à frente da área de Transformação Digital da Cyrela.

Há 13 anos na empresa, Guilherme é formado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com MBA em Marketing pela FGV, Gestão pela Fundação Dom Cabral e Inovação pela INSEAD. Na Cyrela, ele já passou pelas áreas comercial, marketing digital e inovação, atuando nas marcas Living e Vivaz e também na startup Mude.me. Confira a seguir a entrevista exclusiva com Sawaya:

Vamos começar conhecendo um pouco da sua carreira: como a transformação digital chegou ao seu campo de atuação?

Guilherme Sawaya: Entrei na Cyrela em 2007, na área comercial de “back office”. Na época, eu cuidava de uma equipe que precisava garantir que os lançamentos ocorressem da melhor maneira possível. Estávamos numa época de boom imobiliário, então tínhamos lançamentos que zeravam em um dia, com 200 unidades. Meu papel era fazer com que a logística e a tecnologia funcionassem, para que não perdêssemos venda por conta destes fatores. Tínhamos um desafio bem processual e um dos objetivos era formar uma equipe que pudesse tocar isso dali em diante, uma vez que eu não ficaria para sempre naquele papel. Fiz isso por um ano e meio, organizei a casa e conseguimos ter uma implantação de processo de sistemas supereficiente, que garantiu que os lançamentos fossem feitos com bastante organização.

Depois disso, fui para a frente de batalha, virei gerente comercial. Eu tinha como incumbência fazer as estratégias de lançamentos dos produtos, para que eles realmente vendessem muito rápido os empreendimentos. Fiquei um ano fazendo isso em São Paulo e aí fui convidado para ir para o Rio de Janeiro para fazer a mesma coisa lá, como gerente comercial da marca relativa a empreendimentos situados no mercado econômico, que na época era Living. Fiquei quatro anos no Rio fazendo vários lançamentos, com um time grande de pessoas e vendendo superbem, ainda estava numa época muito boa de mercado.

Depois, voltei para São Paulo para cuidar do marketing digital em 2013. Quando eu voltei, eu tinha feito uma pós-graduação em marketing, e eu tinha um background de tecnologia anterior à Cyrela. Eu trabalhei numa software house, mas me deparei com uma ciência muito diferente, que é a história do marketing online. Significa você fazer os produtos e a mensagem na empresa e tudo isso reverberar muito forte no ambiente digital. Com isso, tive que aprender em pouco tempo e sair jogando para garantir essa entrega – que era grande, com escopo nacional. E ainda formar uma equipe. Fiz isso por bastante tempo, o que acabou abrindo portas para entrar mais nessa história da inovação e da transformação digital.

Eu peguei essa porta do marketing digital e comecei a frequentar eventos de inovação, tendências, não só no Brasil como fora também. Comecei a ver muita coisa que me interessou e me deixou muito estimulado a trazer para o nosso mercado, para a Cyrela. Nosso mercado imobiliário é muito analógico, antigo. E eu percebi um campo enorme para inovar. Comecei a fazer palestras, tanto para grupos grandes de funcionários, como para grupos menores da diretoria. Depois, junto com o Juliano Belo, que era nosso diretor administrativo-financeiro, começamos a trazer algumas iniciativas. Na época, ele se relacionava bastante com o sistema de startups, entendendo o empreendedorismo no nosso setor e viu que havia pessoas querendo fazer diferente.  Enquanto eu trabalhava a cultura de inovação, ele atuava no relacionamento com o ecossistema.

De 2017 a 2018, estruturamos de verdade uma estratégia de inovação dentro da Cyrela, inclusive trouxemos consultores para nos ajudar com isso. Isso permitiu que compreendêssemos que havia várias frentes que precisávamos evoluir – como, por exemplo, introduzir isso na veia da empresa, como uma cultura, para que as pessoas entendessem que precisam olhar para fora, ver o que tem de novidade, e não se acomodar e se acostumar a fazer o que faz igual nos últimos dez anos, achando que vai dar certo nos próximos dez.

Fomos trabalhando a cultura, o investimento em startups para ficar perto do que estava acontecendo, trabalhando intraempreendedorismo e POCs (Proof of Concept) com as startups para que elas se tornassem nossas fornecedoras de soluções inovadoras. Tudo isso foi acontecendo nos últimos dois ou três anos e foi crescendo. Foi tomando corpo na Cyrela.

Tivemos um incentivador muito importante que é o Efrain Horn, que é nosso copresidente. Ele viu esse movimento acontecendo e veio junto com a gente. Começamos a ter três reuniões semanais com ele, para tratar de cada uma dessas frentes. Isso fez toda a diferença. Ele autorizou também orçamento para essa área, trazendo grandes impulsos dentro da Cyrela e o fogo se alastrou. Nós conseguimos, de fato, fazer muita coisa em pouco tempo.

A inovação está presente na Cyrela atualmente de forma transversal a todas as áreas de empresa, incentivando todos os colaboradores trazerem ideias. Como isso funciona na prática? Pode nos trazer alguns exemplos?

Desde o trabalho com os consultores, organizamos uma espécie de concurso de ideias. No começo, fazíamos de forma bem aberta – qualquer pessoa que tivesse uma ideia poderia inscrevê-la. O nosso objetivo era ajudar as pessoas a lapidarem essa ideia: ensinar a fazer um pitch para vendê-la para outras pessoas; realizar um protótipo para verificar se de fato ela funcionava; depois ver a parte econômica, se precisa de investimento; e um business case, para ver se dará retorno.

Só que vimos que funcionava melhor quando as pessoas eram estimuladas com temas específicos. Então passamos a mostrar a elas exemplos mais concretos, as dores reais da empresa. E aí questionamos se as pessoas têm uma ideia para solucionar esta questão. Isso se provou mais eficiente e começaram a vir sugestões mais interessantes também. Assim, começamos a lançar desafios internos e isso engajou muito as pessoas. Iniciamos um trabalho de alfabetizar os colaboradores nesses conceitos de inovação, fazendo-os refletir sobre quais soluções seriam interessantes para a Cyrela e quais poderiam extrapolar os limites da companhia e se tornar uma nova empresa.

Outro ponto é que começamos a ensinar o que é fazer de forma ágil, o que é um mínimo produto viável e como colocar no mercado, expondo-o a um grupo pequeno de pessoas que são target, pegar o feedback delas e ir melhorando. Essas são coisas que não faziam parte do dia a dia da Cyrela.

Com isso, as pessoas viram um jeito de agir diferente. Conseguimos mostrar a elas também que isso não serve só pra Cyrela e que vale para cada um em sua carreira. Quem ficar fazendo a mesma coisa por cinco, dez anos, estará sabotando o próprio futuro. Se tem uma coisa que sabemos é que é o que fazemos hoje não vai valer nada daqui a 5 ou 10 anos. Vai perder relevância, vai ser substituído por máquinas. O comportamento do consumidor vai mudar, então temos que ter um plano B, C e D. Acredito que esse foi um avanço grande que tivemos junto com a nossa equipe.

Como está sendo conciliar home office com o fomento à transformação digital?

Tudo teve que virar digital. Tínhamos muitos encontros físicos. Há um espaço físico no último andar do prédio da Cyrela, na Vila Olímpia, que é o MitHub. Lá fazíamos eventos, trazíamos funcionários para conhecer as startups, realizávamos treinamentos, etc. E isso tudo foi para o mundo digital. Essa pandemia aconteceu num momento específico da história – se ela tivesse ocorrido 10 anos antes, acredito que teríamos paralisado muito mais. Foi como conseguimos tocar a vida no mundo digital. Todo mundo se acostumou a trabalhar por vídeo e continuamos a fazer nossos eventos desta forma.

Acabamos de lançar agora uma trilha – chamada trilha da inovação – são módulos que as pessoas farão de casa. Muito bem curados, editados, com conteúdo supermastigado e fácil de digerir sobre cada um dos temas. Então, por exemplo, tem um que chama design thinking, que é um módulo de 20 minutos formado por vídeos curtos, textos, cases e exercícios supercurados para funcionários da Cyrela. Há vários cases do nosso setor e formulamos junto com nossos consultores, que são professores também e isso está disponível na nossa intranet, na Academia Cyrela para que todo mundo assista.

Então, o negócio continua acontecendo e tivemos uma certa adesão extra principalmente nos primeiros meses (março e abril), quando houve quase uma paralisia no mercado imobiliário, uma vez que estava todo mundo realmente trancado dentro de casa. Desta forma, as pessoas começaram a ter mais tempo para investir nesse tipo de concurso e fazer inovação. Depois, o negócio retomou e agora explodiu, nunca vendemos tanto. Mas conseguimos fisgar as pessoas pelo meio digital para que elas se engajassem com a inovação.

A educação é o principal pilar para o Instituto Cyrela. Na sua experiência, quais habilidades – não só hard skills, mas principalmente soft skills – se fazem necessárias nesse ambiente de transformação digital?

Duas são essenciais: humildade e curiosidade. Os arrogantes estão com os dias contados. Eles são os primeiros a morrer, porque eles entendem que sabem tudo e acham que o que o conhecimento que já possuem é suficiente.

Antigamente, na geração dos meus pais, não existia essa provocação que a pessoa deveria ficar o tempo inteiro questionando e se atualizando. Claro que teve gente que fez isso a vida inteira, mas era exceção. A pessoa tem que ser humilde para entender que por mais que ela seja grande hoje, ela vai perder relevância ao longo do tempo. O primeiro passo é a humildade para admitir isso e abrir novas portas.

E o segundo passo é a curiosidade. É ficar de olho nas pessoas, é ter uma lente sobre o mundo sem preconceitos. Se você tem preconceitos, você perde oportunidades. Ao ter ideias como: “ah, eu não quero fazer apartamento para pobre”, você está deixando de ser um observador do comportamento humano. E ele muda muito rápido. É por isso que temos que ser muito curiosos.

As pessoas são as primeiras a adotar novas tendências e a sair lá na frente. As empresas tentam correr atrás, enquanto o governo está lá atrás. E esse comportamento muda muito rápido e ele é puxado por algumas empresas também mais evoluídas e mais modernas. Quando a pessoa tem uma superexperiência para pegar um táxi ou para pedir comida, ela vai querer o mesmo ao comprar um apartamento ou frequentar um hotel. E se essas outras empresas não seguirem essas tendências e fornecerem essas experiências, elas vão ficando pelo caminho.

Por isso que eu digo: humildade e curiosidade são os principais valores. Estar o tempo inteiro atento, olhando o que as pessoas estão fazendo. Se você conhecer uma pessoa que é completamente diferente de você, ao invés de se afastar, se aproxime. Peça para ela te contar a experiência dela, de repente você pode descobrir tendências que não conhecia e, mais tarde, vender para esse nicho. Então acredito que essa curiosidade é superimportante.

O Instituto tem fomentado algumas iniciativas nesse sentido, com exemplos como o do Proa 4.0, que tem como objetivo não só adaptar a metodologia, mas também todo o espaço, com aquisição de equipamentos, inclusive, para aproximar os jovens da tecnologia. Como você entende que o terceiro setor pode contribuir e estar conectado à transformação digital?

O Brasil tem uma grande oportunidade nas mãos que é o nível de conectividade das pessoas. Esse jovem que não tem nem acesso à internet, é bem raro na verdade. Tem gente com uma condição supersimples, mas que tem smartphone. Temos um número gigantesco de smartphones por habitante. As empresas que querem fazer a diferença e desejam atingir esse público estão conseguindo. Você só precisa de fato calçar o sapato desse cliente. Não adianta você tentar fazer uma estratégia de gabinete. Você precisa entender qual é a realidade dele, qual é a vida dele.

Basta ver o exemplo do Dr. Consulta. Assim como eles, há diversas empresas que estão mirando esse público e têm uma interface digital. Até mesmo serviços de governo hoje oferecem algumas opções que só são feitas no digital.  O governo fez isso, porque ele entendeu que se a pessoa quiser dar um jeito, ela vai acessar. Se ela tem rede social, significa que ela também consegue acessar para fazer alguma coisa de outra natureza nos meios digitais.

No Instituto Cyrela, conversamos bastante sobre os desafios destas instituições de transformação digital. Quando veio a pandemia e ela desligou o mundo físico, só sobrou o digital. Do mesmo jeito que as empresas tiveram que se reinventar para não morrer, as instituições também. É interessante avaliar como elas conseguem ajudar mais ou de uma forma diferente através do mundo digital. E o mais legal de tudo isso é que são lições para ficar, elas não acabam agora. Não sabemos se o normal irá voltar ou se teremos uma segunda onda. Mesmo que volte ao normal, essas lições não se perdem. Tem instituições que vão ganhar escala até na própria atuação, através da conquista desse mundo digital. Eu vejo com muito bons olhos. Acredito que tenha sido uma provocação forte para tirar a poeira, chacoalhar as instituições para, no mínimo, elas pensarem como atuar no digital.

Dá para pensar em formas de facilitar isso – seja através de uma parceria ou de um app que não consome dados, que é patrocinado por alguma empresa para que ele não consuma dados, que possa ser acessado por um celular pré-pago. A tendência é ganhar escala. Isso permite que você atenda muito mais gente do que quando você depende do espaço físico.

Você já teve a oportunidade de atuar como voluntário. Como o voluntariado pode contribuir para aproximar as áreas da Cyrela e a incentivar essa cultura maker, essa cultura de criação conjunta, mão na massa?

Tivemos uma grata surpresa agora na pandemia. Juntamos várias áreas e regionais para fazer um processo de desenho de jornada do cliente do nosso prospect, e entender como melhorar a experiência digital dele. Essa experiência já existia antes da pandemia, mas queríamos entender como melhorar a atuação do nosso corretor e a experiência do cliente no digital. Conseguimos juntar São Paulo, Rio de Janeiro e Sul em salas virtuais, envolvendo áreas totalmente diferentes – negócios, marketing, online, vendas, relacionamento com o cliente, repasse e TI. São pessoas que não se conheciam no dia a dia, que não se falavam, e começaram a se falar num ritmo semanal e hoje em dia têm uma superintegração. É muito engraçado, porque elas nunca se encontraram fisicamente, mas estão praticamente amigas.

Acredito que o voluntariado tem esse poder também. Eu sempre vi isso na Cyrela. Todos os movimentos que o Instituto Cyrela propõe – o Dia da Ação Voluntária e vários outros – juntam pessoas de áreas diferentes e de regionais diferentes em torno de um objetivo em comum. São duas coisas que convergem. Hoje essas ações são muito físicas, mas vejo algumas formas de promover o voluntariado online, como dar mentoria aos jovens, oferecer cursos em conjunto e debater os resultados destas iniciativas. Tudo isso vai promover mais ainda essa integração. E com um propósito até maior! Uma coisa é você juntar todo mundo para trabalhar. Outra coisa é ter todo mundo junto por um propósito maior. Desta forma, os laços tendem a ficar até mais fortes.

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